DESRESPEITAR UM TIO ERA PIOR DO QUE VIOLAR UMA LEI

Publié le par LUVUVAMO YALA DAMBA

DSCF9175N´LUNGA E O MAWENE NA TRADIÇÃO DOS POVOS KONGO

 

N´lunga, palavra Kikongo, é o nome dado a uma bracelete geralmente feito de metal cobre (como a imagem mostra )era usado para demonstrar PODERES seja no quadro de potencial económico, ou para assumir um determinado cargo de chefia a nível das comunidades ou familiar.Nos casos de protecção familiar, o N´lunga era ungido de poderes místico.

 

No reino do Kongo, os povos há milhares de anos antes da chegada dos europeus, já usavam os N´lunga que fabricavam com o cobre importado dos territórios dos povos Lundas, partindo da fronteira Kongo sob o comando do Mbala- Kongo ( Ba mbala - RDC ), na outra margem do rio Kwango.

 

Nos nossos tempos, entre os Bakongo, é muito familiar ouvir-se falar de N´kodia, N´lunga, Mawene, Mbele a Lulendo (espada), mas que o interesse em procurar saber sobre esses coisas e realidades nos remete ao medo de se tornar feiticeiro, sobretudo quando se necessita de abordar com velhos, idosos muitas vezes suspeitados de bruxos por serem detentores de conhecimentos místicos da nossa história em todos os sentidos ( fisico material e espiritual ).

 

Depois de contactos com alguns velhos, as investigações tentaram apurar até aqui, as seguintes luzes que poderão ser enriquecidas com ajuda de muitos outros que com a coragem abordarão outros velhos que graça a Deus ainda se encontram em vida :

 

1º - Existe uma diferença entre N´kodia e Mawene, no seguinte:

O N´kodia é património místico de uma família.Sua importância,reside de facto de atrair fortunas, e pode ser transmitido seu poder de geração em geração entre os membros da mesma família. O n´kodia é interpretado como feitiço para arrecadar dinheiro, mas que seu funcionamento exige obediência escrupuloso de regras da parte do seu gestor. Caso acontecer uma falha ou violação de regra, a pena é entregar a vida de um dos membros da família, como sacrificio, dali surge a crença de que alguém foi comido “ a dídi “- traduzido como : “Lhe comeram “ para quem não vê coisa espirituais; mas para quem vê, é fácil a confirmação e especificação da culpa ou acusação “ A futidi um nfuka“ pagaram –lhe na divida - IMOLAÇÂO. Esse tipo de feitiço ainda existe até hoje em algumas pessoas, de algumas famílias, mas como é crime denunciar segredos da família alheio sobre essas práticas, é praticamente impossível dizer quem é quem. Só que se acredita que algumas pessoas detentores de muito dinheiro tenham o N´kodia.

2º O MAWENE é um poder místico de cada família para a sua protecção transmitido de geração a geração ao membro chefe de cada família, este caso, o tio materno.

 

Para melhor entender esta matéria, abordei o mais velho MBANZU A NTEKA MUNKULUDI YE KANTUDI E NPAKA, filho de Mpembele a Nteka, de Nambwa-Mambu , muana wa Vela kia Kóko, que era residente de Luaya Lwa Mongo, na Regedoria de Zanza/ Nkusso Pete/ Damba. Esse Neto de Ne Lawu dia Nza e IKANYENGENENI, recebeu testemunho porque andava acompanhar muito seu pai quando ia resolver problemas familiares.

 

COMO FUNCIONA ?

 

Trata – se de um pacto.

Nos tempos passados, nem qualquer pessoa podia ser bruxo ou feiticeiro como hoje se trata. Numa grande família( de muitas pessoas ) podia existir apenas uma ou duas pessoas dotadas de poder de ouvir bem, de falar bem e de decidir. Eram pessoas dotadas de conhecimentos amplas sobre a vida normal no mundo real e espiritual. Esse poder não se apanhava mas que era transmitido de geração em geração, antes da morte do seu detentor portanto membro da família. Mais tarde, com algumas invejas entre membros da mesma família, sobretudo entre quem fica com o poder e quem não ficou, alguns começaram a importar o poder em zonas longínquas onde podiam comprar, e trazia para a protecção de sua família. Por isso esse tipo de poder chamou-se MAWENE.

 

Por regra, cada família tinha de ter apenas um MAWENE ( normalmente essa palavra pode ser traduzido por – ENCONTRADO, mas aqui entende - se por herança mística). Entre muitos casos isolados havidos, lembrou-se do NDOMBE WA ZANGAMA, irmão do Mpembele a Nteka, pai do Ngwa KANSILO, que com coragem e determinação teve que deslocar até ao território dos BAYAKA para adquirir o Mawene e trouxe para sua família. Salutar entender que apesar da regra geral de que cada família tinha de ter apenas um (Mawene ), esses dois irmãos se entendiam quando era necessário resolver assunto da família, nomeadamente: óbito, doenças, conflito no lar, problemas de terras para cultivos, casamentos, e outros Tudo passava-se na base negocial.

 

 As consequências na gestão desses poderes místicos quando se cometia erros ou violação de regras não fogem muito daquilo que se verificam no caso de quem N´kodia “São membros da família que vão ser sacrificados em KIMENGA “ traduzida como IMOLAÇÂO.

 

COMO SE TRANSMITA ?

 

Mpembele Nteka era sobrinho do Kiala kia Nsuka, Mbala za yama, e KIFWEMENE . Isso para esclarecer de que só os sobrinhos que eram ungidos desses poderes de protecção da família.

 

 Para a transmissão desse tipo de poder, realiza-se uma cerimónia na qual se cozinhava para exclusivamente a pessoa a ser ungida, uma refeição especial de NSUSSO a MBUMBA, para além de outros pratos que vai servir os outros membros da família. Nesta cerimónia, a pessoa a ser ungida ou consagrada vai escolher dentro os membros da família, sobretudo no ventre de uma mulher (linhagem materna ), uma menina que passará a usar o N´lunga depois de crescer. O N´lunga era dado quando ainda CRIANÇA. Não era preciso levar a pessoa no N´longo ou seja entendido como “ na INICIAÇÂO” até porque vigorava a tradição de todos os rapazes passar no N´longo e não as crianças na idade de bebés.

 

 O N´lunga para a protecção da família era dado só aos membros da família de sexo feminino da linhagem materna. Quando ainda é bebé, no dia da passagem do Mawene, lhe é colocado na língua, o molho de Nsusso a Mbumba (Galinha de segredo ou da politica), como adiante se referiu que só pode ser comido pelo o consagrado. A mãe da menina será obrigada a colocar na água de banho da menina, o N´lunga, todos os dias quando entender lavar a criança. Era uma lei que tinha de ser obedecida na dimensão mais do que obrigatória. Salutar saber que uma ordem dada por um tio materno naqueles tempos, não tinha de ser rejeitada porque o tio tinha o poder supremo na família, até mesmo de vender alguns membros de sua família sem a reacção dos pais; no feitiço como ao vivo ! DESOBEDECER A ORDEM DADA POR UM TIO ERA MAIS GRAVE DO QUE TRANSGREDIR UMA LEI.

 

Essa menina portadora de N´lunga não pode ter relações sexuais, mesmo quando atinge a idade adulta. Tudo era trabalhado no sentido dela não sentir vontade de homem, e educada no sentido de não pensar em casamento nem de ter filhos.

 

Em 1961, depois do inicio da guerra de libertação Nacional de Angola, Npembele a Nteka, estando já no CAMP CARRIERE, baixo Congo /RDC na qualidade de refugiado, recuperou o N´lunga  que estava com a Ntumba e deitou-o no rio Kuilo –Ngongo, alegando de que aquilo faz parte do passado e que o presente está com o CRISTO JESUS, o ntemo – traduzido como LUZ ! Ela conseguiu mais tarde contrair matrimónio e teve três filhos sendo dois, já falecido e um está ainda em vida com o nome de Paulo.

 

Algo curioso para os possessos de Mawene é que não encontravam a morte enquando não transmitissem tal poder a um sucessor, mesmo sofrendo de graves doenças e de velhice. Na pior dos casos em que o sucessor não se apresentava, era de invocar a Deus no sentido de lhe dar um pouco de força de levantar e andar e o poder de atirar aquilo contra uma árvore.

 

Aconteceu com Kiala kia Nsuka que teve que fazer vir seu irmão que vivia no Congo democrático, no sentido de se livrar.

 

Algumas cerimonias praticadas no reino Kongo:

 

LEMBA = faz-se quando alguém saiu da tropa, da cadeia, do tratamento contra a bruxaria, o desaparecido reencontrado…serve para reduzir a tensão ou aliviar o temperamento do seu comportamento;

 

TUMBUA = cerimónia de consagração para um cargo

 

BIEKWA = graduação

 

 

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